Tento me distrair com o que a SKY pode me oferecer, visto que já é tarde. Na verdade, na minha mais profunda realidade eu só não quero entrar no quarto. Sei que vai me faltar algo lá dentro.Assim que cheguei na casa, não tinha ninguém parar tirar do carro e nem ir caminhando na frente e assim esperar aos fundos da casa alguém que viesse com as chaves e abrisse a porta, como sempre foi feito; se mudou alguma coisa, já não considero mais uma rotina ...
O trem apita, são exatamente 00:02 de um sábado e me vem a lembrança de como era sacrificante você subir ao terraço. Seja a escada de cimento ou de mármore, ia se revirando, se arrastando, mas você sempre subia vó. E de lá de cima, sempre queria contar os vagões desse mesmo trem que acabou de apitar novamente. Eu tentei uma vez com você, mas perdemos a conta juntas.
Eu sai de casa decidida a durmir no mesmo quarto que eu sempre durmi, mas sem você. Senti que todos que aqui estão queriam saber se era ali mesmo que eu queria durmir; minha madrinha arriscou e eu respondi firme, até mesmo com um tom de "ué ... onde mais eu iria durmir?!". Pouco tempo depois, quando estavamos eu e minha mãe nos fundos, ela perguntou se eu iria durmir no quarto da vovó, e eu disse que sim; ela perguntou se eu iria segurar, aguentar, não me recordo ao certo o termo usado, mas foi algo do tipo e eu disse que sim.
Mas não disse que sim por mim, por mais estranho que pareça, disse por ela. Até pensei em chamá-la para durmir comigo, mas talvez não fosse uma boa idéia. Sei que quando abrir a porta não vou te encontrar deitada de costas para a porta, durmindo, como sempre foi. E que nem vou abrir a porta com medo de fazer barulho e te acordar ... quem disse que não?
Tenho quase absoluta certeza de que vou fazer isso. Abrir a porta lentamente, mas só vou encontrar um cobertor mal aberto sobre a cama.
Talvez eu chore mais um pouco; e me desculpe vó. Sei que você ainda não quer que eu, e nem ninguém, continuemos dessa forma. Mas ainda vejo uma fragilidade imensa a qualquer ambiente que nos era tão comum. E uma fragilidade maior ainda nas lembranças que batem a memória sem dó nem piedade.
E me volta seu rosto que me parecia sereno ... acredito que você está melhor agora.
Respiro fundo, enxugo minhas lágrimas presas e fungo algumas vezes.
Confeço, que nem toda a risada que eu puder dar aqui, nem todas que eu puder provocar com algumas piadinhas sem graça que costumo soltar, nem todas as músicas que eu mais gosto que possam me distrair seriam suficientes ... e não sei por que disso ainda.
Torno a pedir desculpas, essas agora direcionadas a Ele; ainda me questiono, ainda não aceitei, pois ainda dói muito. Dói ainda mais não poder soltar da maneira que eu quero, da maneira que talvez escandalosamente me traria algum alivio.
Ela não gostava de durmir com o ventilador em cima, ao contrário da minha mãe que sempre durmiu com o ventilador em cima, por mais frio que estivesse e por mais fraco que ele pudesse estar.
Agora, eu fico com o barulho da televisão, que normalmente ficava bem baixinha para não encomodá-la, com os mosquitos que parecem bêbados de tantas topadas que eu estou sentindo, mas enfim ...
A luz do corredor ainda está acesa. Ela só ficava acesa por sua causa. Mas por mim, continuará assim.
E eu fico aqui com a luz acesa, muitos mosquitos e as lembranças ... mas hoje ainda é sábado ...
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